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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Morcegos

Inúmeras vezes considerados malévolos e portadores de desventura, estes pequenos mamíferos voadores sobrevivem à desdita, maldizendo as pragas e maldições que lhes foram atribuídas ao longo das eras; ao mesmo tempo garantem o seu papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas e na preservação cultural de qualquer país.
Em pleno Ano do Morcego, transcrevemos um artigo da jornalista CarlaTomás, publicado no Expresso em outubro de 2011, sobre os morcegos da Biblioteca Joanina, se referíssemos a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra as semelhanças seriam assombrosas.

"Quando o sol baixa para o dia dar lugar à noite, os pequenos guardiões dos livros saem dos seus esconderijos por trás das altas estantes de talha dourada e iniciam a sua missão. Não há traça ou mosquito que se atreva a entrar aqui e sobreviva por muito tempo. Quais soldados em defesa do reino da Biblioteca Joanina, em Coimbra, os morcegos erguem asas em defesa dos 80 mil livros antigos que ajudam a conservar e transformam os seus inimigos num repasto.

Duas espécies autóctones dos únicos mamíferos voadores há muito que fizeram da “casa da Livraria” — mandada erguer no século XVIII pelo “Magnânimo” D. João V — o seu condomínio privado. As grossas paredes de dois metros, o lusco-fusco no interior e a temperatura permanentemente amena de 18-20 graus criam o habitat ideal para livros e morcegos. A estabilidade da temperatura só é interrompida pelo abrir e fechar da porta para entrarem pequenos grupos de visitantes.

Não é certo quantos e que exemplares destes quirópteros aqui se albergam. Sabe-se apenas que a maioria dos morcegos precisa de comer o dobro do seu peso em insetos por noite e que alguns se podem alojar em fissuras de 5 milímetros.

É certo que “não existem provas científicas do seu papel conservador”, refere o até há pouco diretor da biblioteca, Carlos Fiolhais. Porém, “é só somar um mais dois: os morcegos comem insetos, os insetos gostam de comer papel, e os livros estão em bom estado” — sejam eles bíblias, prédicas ou tratados de direito ou de anatomia dos séculos XVII ou XVIII.

Numa expedição encetada há cerca de dois anos, o biólogo Jorge Palmeirim detetou a presença de diferentes espécies cavernícolas, mas só conseguiu identificar uma: o morcego-rabudo. Mas este é apenas um inquilino diurno da ‘caverna livreira’, já que “os rabudos não gostam de caçar em espaços fechados e são capazes de se deslocar 50 quilómetros numa noite”, explica o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Restam outras hipóteses: serão orelhudos, como os encontrados na biblioteca do convento de Mafra? Ou morcegos-rato, “que gostam de caçar insetos rastejantes”? Sejam de que subespécie forem, são uma atração quase tão grande como o espólio histórico aqui guardado. Até o escritor Umberto Eco se refere a eles no seu livro “A Obsessão do Fogo” e uma cadeia de televisão alemã já fez uma reportagem sobre o assunto.

Visitantes nacionais ou estrangeiros já ouviram falar deles e perguntam frequentemente a Isabel Cardoso, a bibliotecária que os introduz na nave central, onde se escondem e quantos são. Isabel Cardoso já sabe dizer morcego em inglês, francês, espanhol e italiano. Afinal soma 18 anos de trabalho na Joanina. É ela que cobre as mesas barrocas com uns mantos de couro para protegê-las do guano (cocó) dos morcegos todos os finais de tarde e os retira todas as manhãs. E foi ela quem, num fim de dia do verão passado, soltou um morceguinho que caíra na lata dos chapéus de chuva, junto à porta de entrada.

Com a época estival a avançar, “ouvem-se os morcegos chilrear mais do que nunca”, conta. Finda a época de reprodução primaveril, multiplicam-se os sons vindos de trás das estantes e os excrementos sobre os mantos de couro. Vê-los é coisa rara. As melhores probabilidades acontecem nas noites de concerto de música barroca, “como que enfeitiçados por uma qualquer
flauta de músico de Hamelin”, ironiza Fiolhais. No teto, um fresco da figura feminina e diáfana da sabedoria observa tudo.
Carla Tomás (ctomas@expresso.impresa.pt)


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